Uma série de medidas mais flexíveis adotadas nos últimos meses pela Agência de Proteção Ambiental Americana (EPA) em relação aos produtos químicos pode colocar em risco à saúde da população dos Estados Unidos, afirmou o jornal The New York Times em matéria publicada no sábado (21/10). De acordo com o periódico, tudo teria começado no final de maio, quando o presidente Donald Trump trocou cientistas do órgão por empresários representantes da indústria.
A defesa por novas regras regulatórias vem de uma das maiores autoridades nomeadas por Trump para a administração da EPA, Nancy B. Beck, que há cinco anos havia sido executiva no American Chemistry Council, a principal associação comercial da indústria química dos EUA.
A nova direção da agência para o setor de produtos químicos faz parte de uma ampla iniciativa da administração Trump para mudar a forma como o governo federal avalia riscos ambientais e associados às substâncias tóxicas, tornando-o mais alinhado aos desejos da indústria. Um memorando interno e confidencial obtido pelo The New York Times relata que as mudanças dirigidas por Beck podem resultar em “riscos potenciais subestimados para à saúde humana e o meio ambiente” causados pelo PFOA.
As mudanças registradas nos últimos meses na Agência de Proteção Ambiental Americana tendem a trazer consequências em longo prazo para consumidores e empresas do setor químico, uma vez que órgão ligado ao governo regula cerca de 80 mil produtos químicos, muitos deles altamente tóxicos e utilizados em locais de trabalho e residências.
Se os produtos químicos são considerados menos arriscados, também se tornam menos propensos à supervisão e restrições. A discussão é antiga, bem como o debate de décadas sobre a melhor forma de identificar e avaliar os riscos, mas de uma coisa ninguém tem dúvida: a indústria não tinha tantos representantes no governo desde a administração Reagan. O lobby do setor encontrou resistência na era Obama, mas agora é revivido agressivamente nos primeiros meses da gestão Trump.
Impasse
Doutora em saúde ambiental, Nancy B. Beck é oriunda de um campo firmemente apoiado pela indústria química, o qual critica muitas vezes o governo sob a alegação de dirigir regras onerosas ao setor, que podem ser entendidas como “riscos fantasmas”. Contudo, outros administradores e cientistas da EPA defendem que os perigos são reais e a flexibilização só serve para aumentar os lucros dos empresários.
Uma dessas vozes é a da doutora Wendy Cleland-Hamnett, que até o mês passado era a principal funcionária da agência que fiscaliza os pesticidas e demais produtos químicos tóxicos. Todavia, a especialista tem sido voto vencido. Em março, por exemplo, o chefe da EPA nomeado por Trump não seguiu a recomendação da cientista e colegas acerca da proibição do uso comercial do pesticida clorpirifós, acusado de causar deficiências de desenvolvimento em crianças.
A nova liderança da EPA também pressionou os cientistas da agência para reavaliarem o plano de proibição de dois produtos químicos perigosos que já causaram dezenas de óbitos ou problemas de saúde graves: o cloreto de metileno, comum em tintas, e o tricloroetileno, que remove graxa de metais e é utilizado em limpezas à seco.
A Lei de Controle de Substâncias Tóxicas, que foi promulgada na década de 1970, teve sua revisão mais significativa no ano passado, quando teve apoio de integrantes dos partidos Democrata e Republicano. Na ocasião, a indústria química obteve flexibilização da maioria dos novos regulamentos em nível estadual, enquanto os ambientalistas ganharam garantias de que os novos produtos químicos seriam avaliados quanto aos seus riscos à segurança e saúde. Agora, essa legislação navega em um mar de incertezas.
O outro lado
Procurados pelo The New York Times, a EPA e a doutora Beck recusaram os pedidos da publicação para que comentassem as denúncias.
"A única coisa imprópria e tendenciosa é a sua fixação contínua em tentar atacar profissionais qualificados comprometidos em servir seu país", completa a resposta endereçada ao jornalista Eric Lipton, que assina a matéria.
Antes de se juntar à Agência de Proteção Ambiental Americana, Bowman era porta-voz do American Chemistry Council.
Autoria: Correio da Bahia