Reduzir o estresse, controlar a ansiedade, melhorar o sono e aumentar a disposição já são objetivos mais relevantes para os brasileiros do que emagrecer ou ganhar massa muscular. É o que mostra uma pesquisa da BEON Studios, ecossistema de studios high-end do Grupo Smart Fit, realizada com mil brasileiros. Segundo o levantamento, 66% das metas relacionadas à prática de exercícios nos próximos 12 meses estão ligadas à saúde emocional, indicando uma mudança importante na forma como os consumidores enxergam o bem-estar.
Durante décadas, a indústria fitness foi construída sobre promessas centradas no corpo. Melhorar a performance ou alcançar um padrão estético específico eram os principais motores de crescimento de academias, programas de treinamento e marcas esportivas. Agora, o wellness deixa de estar associado apenas à transformação física para incorporar aspectos emocionais e sociais.
A mudança acontece em um contexto de crescente pressão emocional. O estudo mostra que 58% dos brasileiros afirmam sentir-se sozinhos ao menos algumas vezes por mês, enquanto 41% sentem falta de conexões mais profundas no dia a dia.
Nesse contexto, o exercício físico passa a assumir uma função que vai além da prevenção de doenças ou da estética. Sete em cada dez entrevistados afirmam já ter utilizado a atividade física como uma válvula de escape emocional. Entre os benefícios mais valorizados aparecem energia, felicidade, qualidade de vida e redução do estresse. Não por acaso, 64% dos ganhos associados ao exercício citados pelos participantes são emocionais, e não físicos.
A pesquisa também revela uma das principais dores da indústria fitness: a dificuldade de transformar intenção em hábito. Embora 94% dos entrevistados afirmem que cuidar da saúde é uma prioridade, 60% admitem não conseguir fazê-lo na medida em que gostariam. O desafio, portanto, não está apenas em conscientizar as pessoas sobre a importância do exercício, mas em ajudá-las a manter a prática ao longo do tempo.
É justamente nesse ponto que entram os fatores sociais. Mais da metade dos praticantes, 57%, afirma já ter comparecido a uma aula porque alguém do grupo esperava por sua presença, mesmo sem vontade de ir. Além disso, 69% relacionam a influência de outras pessoas à motivação e à manutenção do hábito. Os dados ajudam a explicar o crescimento de studios especializados e de experiências coletivas de wellness, estruturadas em torno de turmas fixas, rotina compartilhada e interação frequente entre alunos e professores.
Os resultados reforçam essa tendência. A pesquisa mostra que 82% dos entrevistados sentem-se emocionalmente
quando treinam em grupo do que quando treinam sozinhos, enquanto 72% afirmam que colegas ou professores já os ajudaram em momentos emocionalmente difíceis. O fenômeno tem impulsionado o chamado “wellness social”, conceito que combina atividade física, construção de hábitos e conexão humana.
Para as empresas do setor, a construção de comunidade também se tornou uma ferramenta de retenção. O estudo mostra que 59% das pessoas que sentem que determinado espaço se tornou “seu lugar” já consolidaram o hábito da prática física. Frequentadores com horários fixos têm mais de três vezes mais chances de desenvolver esse vínculo, enquanto a probabilidade de pertencimento aumenta quase nove vezes quando o professor conhece o aluno pelo nome e acompanha sua evolução.
“Os dados evidenciam uma mudança de comportamento que já vínhamos observando no mercado. Hoje, as pessoas buscam algo mais amplo: querem reduzir a ansiedade, lidar melhor com o estresse, dormir melhor e construir hábitos que contribuam para a qualidade de vida. Isso faz com que academias e studios precisem ir além do treino e passem a criar experiências capazes de gerar conexão, acolhimento e senso de comunidade”, afirma Carolina Corona, CEO da BEON.
Nesse cenário, equipamentos, modalidades e tecnologia continuam importantes, mas passam a dividir espaço com um ativo historicamente difícil de mensurar: a capacidade de gerar conexão humana. Para uma parcela crescente dos consumidores, o exercício já não é apenas uma ferramenta para transformar o corpo. É uma estratégia para lidar com os desafios emocionais da vida contemporânea, e essa mudança pode redefinir os rumos da economia do bem-estar nos próximos anos.
Imagens: Janne Oliver
Autoria: Correio